METODOLOGIA
Para desenvolver meu trabalho me apoio na obra literária de Manuel Bandeira, sobretudo no seu trabalho artístico até a Semana de 22; tendo Cinza das Horas, Carnaval, Ritmo Dissoluto e Libertinagem como principais textos. Faço essa escolha por causa do ano de publicação de cada livro. Os dois primeiros pré-semana de 22 (1917 e 1919, respectivamente), Ritmo Dissoluto logo após a Semana (1924) e Libertinagem (1930) que traz consigo poemas escritos desde 1924 até o ano de publicação.
Começo assim por definir o que – dentro da obra de Bandeira – mais vai me interessar para o desenvolvimento da pesquisa; porque, segundo Eni Puccinelli Orlandi, na Análise de Discurso, a constituição do corpus de análise deve ser um dos primeiros pontos considerado e definido pelo pesquisador. E mais, para ele, essa “delimitação do corpus não segue critérios empíricos (positivistas) mas teóricos.” Dessa forma, a construção do corpus e a análise estão profundamente atreladas, pois definir o que fará parte desse corpus já é decidir acerca de propriedades discursivas a serem estudadas.
“Em grande medida o corpus resulta de uma construção do próprio analista. A análise é um processo que começa pelo próprio estabelecimento do corpus e que se organiza face à natureza do material e à pergunta (ponto de vista) que o organiza. Daí a necessidade de que a teoria intervenha a todo momento para “reger” a relação do analista com seu o seu objeto, com os sentidos, com ele mesmo, com a interpretação.” (Orlandi,1999, p.63-64)
Tomarei então a poesia como discurso por considerá-la como linguagem em movimento e como material simbólico (é impossível não interpretar a realidade simbolicamente) que faz parte do trabalho social e que é constitutiva do homem e de sua história.
Para abordagem e estudo desse material, utilizarei também o modelo filosófico desenvolvido por Martin Heidegger, geralmente conhecido como Fenomenologia Hermenêutica, que consiste em colocar a obra como centro da atenção sem deixar de lado seu contexto temporal e histórico; fazendo assim um aprofundamento na sua complexidade e significado.
“Heidegger parte da reflexão sobre a irredutível “condição dada” da existência humana, ou o Dasein, como ele chama. (...) Tal existência, argumenta Heidegger, é em primeiro lugar sempre o ser-no-mundo: só somos sujeitos humanos porque estamos praticamente ligados ao nosso próximo e ao mundo material, e essas relações são constitutivas de nossa vida, e não acidentais a ela.” (Eagleton, 1997, p.85).
Aqui creio ser possível uma aproximação do método Heideggeriano com a análise de discurso explanada por Orlandi, pois, com efeito, “os estudos discursivos visam pensar o sentido dimensionado no tempo e no espaço das praticas do homem.” (1999, p.16)
Surgimos dentro de uma realidade inesgotável de significados e essa realidade engloba tanto o sujeito quanto o objeto. Por isso o entendimento, antes de mais nada, é uma dimensão do Dasein (ser-aí ou ser-no-mundo). O entendimento é radicalmente histórico, estando sempre atrelado a situação concreta em que me encontro e que tento transcender. Para ele, a existência humana é constituída pelo tempo e pela linguagem; E a linguagem para Heidegger não é simplesmente um instrumento de comunicação, e sim a própria dimensão na qual se move a vida humana. A linguagem é por excelência aquilo que faz o mundo ser.
Segundo Orlandi, “o texto não é apenas uma frase longa ou uma soma de frases. Ele é uma totalidade com sua qualidade particular, com sua natureza específica.” (1999, p.18) Interpreto isso, essa natureza particular, como o ontos do texto, a linguagem literária tem uma verdade ontológica (ou seja, ela quer ser, ela é). Ao mesmo tempo em que na análise de discurso a linguagem é tida como uma mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social. E é nessa mediação que se encontra a luta entre a resistência e a inovação – o que para Pierre Bourdieu seria o campo de forças entre dominantes e dominados – no campo da produção do sujeito humano e da estrutura social correspondente.
“Essa mediação, que é o discurso, torna possível tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele vive. O trabalho simbólico do discurso está na base do produção da existência humana.” (Orlandi, 1999, p.15)
Mimeticamente, a poética materializa a própria essência da realidade. E para Heidegger, só na arte essa verdade fenomenológica pode se manifestar. Para ele, “a arte, como a linguagem, não deve ser considerada como a expressão de um sujeito individual: o sujeito é apenas o local, ou o meio, pelo qual a verdade do mundo se manifesta, e é essa verdade que o leitor de um poema deve ouvir atentamente.” (1997, p. 89).
Para finalizar este trabalho e amarrar melhor minha idéia, faço uso do argumento de Aristóteles sobre a diferença entre o historiador e o poeta. Para este filósofo grego, eles não diferem pelo fato do historiador escrever em prosa e o poeta em verso: “diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido.” (2004, p.43). Para Aristóteles o poeta narra o possível, segundo a verossimilhança ou a necessidade e a história estuda apenas o particular.
Tomo, então, a obra de Manuel Bandeira, como documento e discurso histórico e cultural para uma análise fenomenológica e reflexão sociológica a respeito de seu modernismo (e sua modernidade) dentro de sua visão e relação com o mundo.
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