sexta-feira, 7 de abril de 2023

MEMENTO MORI

    Já reparou como existem colecionadores para toda sorte de coisas, por toda parte e em toda a história? 

Não estou aqui a falar de acumuladores compulsivos, geralmente insalubres, com seus amontoados de quinquilharias sem muita ordem, valor ou distinção; mas daqueles que o fazem com pesquisa, com paixão e com uma admiração amadora quase infantil pelo acervo, arquivado e catalogado, adquirido ao longo de um caminho.

Coleciona-se de tudo: plantas e peixes; discos e livros; veículos e naves; camisas de futebol e viagens pelo mundo… 

Talvez seja uma forma de dar sentido a uma existência menos medíocre ou simplesmente uma maneira de tentar viver uma vida mais autoral. Não sei dizer. Sei que, de todo modo, não é bom (nem faz bem) negar a própria potência. Devemos viver por aquilo que nos move, alegra e excita, mesmo que isso não comova mais ninguém.

Não sejas tu facilmente demovido de teus interesses pelas críticas alheias. Não deixes que as forças reativas da sociedade esmaguem o teu glorioso Conatus. Não permitas que a invejosa moral do escravo o faça odiar tua própria autenticidade.

Pois assim eu vos digo, afinal e ao final, como já bem escreveu aquele rapaz de imenso bigode, no seu A Gaia Ciência, lá em 1882:

“Qual o emblema da liberdade alcançada? 

Não mais ter vergonha de si mesmo.”

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Axioma do Enovelamento

 

Tudo (ou quase) que é extenso

e delgado no universo (na natureza),

tem uma tendência (ou força) natural (e universal)

para enrolar-se sobre si mesmo; enovelar-se.

Desde moléculas proteicas até galáxias inteiras.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

ESTOICISMO Nietzscheano DO EU

Agora, nesse exato momento,

sou um cara mais simples.


Mais simples e, no entanto, mais feliz.


Mais feliz e mais indiferente à própria infelicidade;

indiferente e, portanto, mais satisfeito de si mesmo.


Menos Humano e mais Superumano.


Evito todos os fins:

pois sei que toda finalidade é um limite, uma prisão, uma asneira…

Desprezo todos os meios:

pois sei que os métodos são sempre enviesados e tendenciosos...


Gosto, a minha própria maneira, de ser estimado e temido;

como um tirano do ontem e um sedutor de outrem.

 

domingo, 12 de setembro de 2021

A Tragédia da Paz Democrática

Por Fernando Maia. 


É no contexto da diminuição da tensão militar entre Estados Unidos e União Soviética decorrida da Détente na década de 70/sec-XX, que é possível entender o surgimento da Paz Democrática como programa de pesquisa na Ciência Política Americana (CPA). As questões militares (as mais diretas) entre as duas superpotências estavam arrefecidas e o embate ideológico, em termos de confronto claro entre visões de mundo, restabeleceu-se definitivamente, ganhando “corpo”. De um lado, um modelo de mundo que preconizava uma sociedade progressivamente igualitária, em que o coletivismo seria o fio condutor do desenvolvimento humano, mas um modelo de mundo sem muitos espaços para a auto-contestação pacífica. Do outro lado, um modelo de mundo que preconizava uma sociedade livre, em que indivíduos livres, por meio do método democrático fundado no princípio majoritário, teriam muitas liberdades, inclusive a de contestar o próprio modelo (a extrema direita ocidental dos nossos tempos adora essas liberdades, lembremos!). 

É justo nesse ponto da História que elementos da CPA descobrem/inventam “a coisa mais próxima de uma lei empírica” da disciplina que eles chamavam de Relações Internacionais, a saber: democracias modernas nunca estiveram em lados opostos numa guerra. O programa de pesquisa estava dado, a partir dessa “realidade” empiricamente incontestável, a de que democracias causavam paz. 

Sendo um pouco mais crítico, o desenho de pesquisa proposto era, na verdade, bem retardado. Pegaram um período de 20 ou 30 anos da História da Humanidade (que depois do primeiro escriba cuneiforme, já tem uns 15 mil anos de muito sangue derramado, cabeças decapitadas, intestinos eviscerados, estupros e escravizações em massa), observaram uns países, já definidos previamente pela Teoria Democrática como “democracias liberais”, dadas algumas comunidades entre as respectivas formas de organização política e chegaram “à coisa mais próxima de uma lei empírica” das Relações Internacionais. O nome é sugestivo: Teoria da Paz Democrática. Disso começaram a se perguntar sobre os porquês desse fenômeno tão sui-generis.

Primeiro, como todo bom programa de pesquisa nas humanidades, foram à Filosofia. E acharam Imannuel Kant, o iluminista mais virgem de todos, que tinha escrito um livro já no final da vida, cujo título era “A paz perpétua”. E lá estava escrito, mediante aquelas conclusões bem kantianas sobre o cosmo, que a paz no mundo seria alcançada depois que todas as sociedades fossem livres da sanha marcial dos seus governantes e, assim, os seus partícipes, livres para exercer a racionalidade, escolhessem como se daria a política entre as nações/Estados. E evidentemente, um ser racional sempre escolherá o caminho da paz... perpetuamente. Ou seja, como todo péssimo programa de pesquisa nas humanidades, os proponentes da Paz Democrática foram à Filosofia de maneira anedótica, como se para justificar intelectualmente as porcarias que iam começar a escrever. 

A História caminha e no início da década de 90/sec-XX,o modelo de mundo, cuja realização a CPA nunca quis compreender seriamente, ruiu de forma dramática. Logo, alguns ideólogos norte-americanos resolveram decretar que a História (perdão pelo H maiúsculo, mas...) tinha chegado ao fim. O modelo de mundo que se definia como Democracia Liberal (DL) tinha vencido aquele embate ideológico; por walkover, é bom dizer. Assim, numa versão norte-americana do Darwinismo Social, esses mesmos ideólogos chegaram à conclusão de que era a DL o ápice do desenvolvimento político de todas as sociedades. E agora a Teoria da Paz Democrática já tinha uma receita bem elaborada para apressar o advento desse mundo, pois ainda havia sociedades recalcitrantes, que teimavam contra a evolução implacável – por responsabilidade dos seus governantes autocratas, ditadores, tiranos, etc. Com a máquina de guerra mais poderosa que a humanidade já viu na vanguarda, a DL poderia ser exportada. Mas a década de 90 até que foi tranquila e a Política Externa Americana (PEA) seguiu espalhando o modelo político e o neoliberalismo (como modelo de política econômica) pelo globo de forma relativamente pacífica, pois por que onerar norte-americanos com impostos de guerra, quando se tinha o Fundo Monetário Internacional, não é verdade? 

Embora a História tivesse chegado ao fim, Ela continuou andando. E aí o século XXI já começou pegando fogo e demolindo uns prédios, quando um bando de wahabitas sequestrou três aviões, jogando-os contra alvos dentro do território da Democracia Liberal mais bem realizada, segundo seus próprios ideólogos, o que abalou todo o ocidente. O fim da História mal tinha durado 10 anos. Rapidamente, a Teoria da Paz Democrática assumiu sua faceta normativa como teoria de Segurança Internacional da Doutrina Bush, deixando de ser o fundamento retórico da Doutrina Clinton, para justificar as intervenções no Afeganistão (embora os wahabitas fossem quase todos súditos da família Saudi, uma família amiga) e no Iraque de Saddam Hussein. Segundo essa nova versão, esses dois Estados precisavam conhecer a DL. O Irã também foi sondado para receber a benesse, mas essa empresa pareceu não valer muito a pena, nem para a administração Bush, nem para a administração Obama, o primeiro presidente americano negro a matar civis sírios com caças Predator na História.

Soma-se a esse intento da PEA, o furor da administração Obama, quando no Norte da África, governos autoritários, porém laicos, começaram a ser contestados por seus cidadãos, que clamavam por mais liberdade. Alguns desses cidadãos queriam ter a liberdade de apedrejar mulheres adúlteras até a morte e decapitar homens que amavam outros homens. E foram esses, um pouco mais organizados do que os seus colegas democráticos, plurais e, portanto, difusos, que prevaleceram no que se chamou, num surto de histeria coletiva típico de elementos que preferem guiar a sua ação política mais por princípios éticos e morais e menos por cálculos das reais capacidades políticas e militares dos atores que estão no jogo, de Primavera Árabe. A coisa se espalhou pelo Mundo Árabe, chegando à Síria, onde Barack Obama e François Hollande resolveram armar e financiar a oposição contra Bashar Assad, que clamava por mais liberdade, oposição esta hegemonizada desde sempre por guerreiros da liberdade, que depois de matar seus antigos colegas de oposição ao governo Sírio, fundaram o Estado Islâmico do Levante, um Estado onde era clara a liberdade do governo em trucidar etnias não sunitas e mesmo grupos não-wahabitas. Quem tiver um estômago bem libertário pode procurar essas ações pela internet. 

É muito comum a ideia de que a Paz Democrática, i.e. a declaração de intenção pró democrática da PEA, é mero embuste utilizado pelas administrações norte-americanas para justificar emprego de força militar no exterior. Não se pode negar algum sentido nessa assunção. Idealismos servem para a mobilização de um público, mesmo que as motivações dos agentes que os usam sejam menos “nobres”. Mas isso não nega o caráter normativo da Paz Democrática como teoria de Segurança Internacional, aliás, até enfatiza. Por outro lado, a democracia, ainda que seja como método, foi vivenciada no Afeganistão e no Iraque. Afinal, houve eleições com uma série de partidos concorrendo, com formação de legislativos e de governos, dentro de regras minimamente respeitadas pelos atores em jogo. Talvez essa última frase contenha alguma ironia e eu precise alertar que a morada de Satanás está justamente nos detalhes, mas certamente a ironia não supera o fato de que o fracasso de se incentivar o surgimento da democracia (seja qual for o meio utilizado com esse intento) foi notável pelo aumento da violência que se sucedeu a esses incentivos, tanto nos países abençoados pela Primavera Árabe, quanto no Iraque, depois “anexado” ao Estado Islâmico do Levante, tornando-se o ISIS. 

E aí, chegamos aos últimos dias, quando o Talibã cercou Cabul e os norte-americanos fugiram de novo com o rabo entre as pernas de um país cuja política doméstica foram avacalhar em nome de algum ideal obscuro e iluminista (e impreciso) de liberdade – tanto no início da década de 80-sec XX, quando em 2001 – e nesse caso, depois de tutelarem uma democracia, ainda que apenas no método, em que concorriam partidos permitidos pela PEA. A expectativa inicial de um banho de sangue sectário, felizmente até agora não se deu, mas já ficou o altíssimo custo de vinte anos de banho de sangue e dinheiro. 

E se vale como um post scriptum, a utilização da analogia da forma literária que se consolidou na democracia ateniense no século V a.C., reconheça-se, é um clichê. O teatro ateniense tinha uma clara missão didática, que recomendava o controle do pathos, já que era o pathos a situação que levava os personagens a se envolverem em histórias de violência e sangue. As historinhas da Política Externa Americana acima contadas são de violência e sangue. O que arrisca tornar inválidas as analogias com a tragédia é a quantidade de violência e sangue, vultuosa como nunca se viu antes.


Extraído de Macro, micro e meso política (macromicromesopolitica.blogspot.com)


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Clarice Lispector à cabidela



Fábio Guimarães Liberal



De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue” (LISPECTOR, 2016, p.404)


Clarice Lispector é o tipo de escritora capaz de se alimentar com recursos mínimos de objetividade. Uma barata, trem ou ruído são mais que suficientes. Essa habilidade de redimensionar a banalidade deu vazão a um universo existencialista profundamente marcado pela fixação no aspecto ordinário da vida. A galinha está entre as compulsões da autora, retratada  geralmente como portadora arquetípica do sacrifício. O fascínio pela criatura não se esgota no animal. É também fruto do gosto pela cabidela, ou molho pardo como prefere adotar Clarice em seus contos. A receita, preparada com o sangue da ave, aparece algumas vezes na ficção da autora num misto de desejo e moralidade, afinal matar um animal e consumir o seu sangue confronta os ideais pacíficos da civilidade.  
Câmara Cascudo explica que o termo “cabidela” teria surgido a partir da palavra “cabo”, utilizada tanto para fazer referência às extremidades dos animais quanto a seus órgãos internos. Na Portugal do século XVI, os círculos mais ligados à corte se diferenciavam do restante da população se utilizando do termo “galinha ao molho pardo”. Esta distinção de classe talvez esteja na origem da variação da expressão no Brasil: enquanto a porção mais pobre do país adotou o linguajar vassalo, a mais rica assumiu a fidalga.
Clarice era uma mulher de classe média atraída pelo sabor perfumado do molho escuro e pelo simbolismo que o prato carrega. A visceralidade do corpo e da alma sempre fora seu eixo temático. Nele há espaço para o compadecimento com o fato do principal ingrediente, a ave, possuir status desfavorável dentro da hierarquia dos animais, mesmo entre aqueles mais consumidos pelo homem. Se por vezes a escritora exagera na caricatura da galinha como um ser escandaloso e desprovido de ordenamento motor, em outras lhe restitui  alguma nobreza e sagacidade. Tem consciência da pouco consideração que o bicho tem perante bovinos, caprinos e suínos; que a coisa mais banal para o senso comum é uma titica de galinha; que uma pessoa com comportamento sexual promiscuo é um/uma galinha. O mesmo acontecendo no mundo anglofônico onde chamar um indivíduo de birdbrain (cérebro de galinha) é equivalente a tê-lo como um sujeito excepcionalmente apalermado.
É preciso ressaltar que até os anos 1950 a galinha era um animal muito presente nos quintais das casas brasileiras, mesmo nas cidades mais modernas. Por se tratar de um animal de pequeno porte, o abate, pelo menos do ponto de vista pragmático, nunca fora um grande empecilho. O atual complexo industrial brasileiro de avicultura, desencadeado pelo processo de urbanização do país ocorrido nos últimos 60 anos, foi decisivo para tornar a prática do abate “artesanal” obsoleta.
O fato de ter experienciado o abate em escala doméstica e problematizá-lo numa época em que era comum a prática ressalta a sensibilidade de Clarice para com os animais, embora não no sentido moral da ética animalista contemporânea e sim dentro de uma perspectiva mais íntima que busca refletir sobre a tradicional oposição entre corpo e alma. Afinal, o gênero de Clarice não permite romancear a vulnerabilidade da galinha para ilustrar uma opção pelos mais fracos ou para direcionar críticas a estrutura produtiva da carne. O bicho incorpora, pelo contrário, a ambiguidade de tornar aceito o caráter violento da vida e ao mesmo tempo considerar a truculência um desvio de conduta. Ao representar o fatalismo impresso em determinados impulsos humanos, o destino culinário da galinha oferece o lado conflituoso dos nossos anseios por civilidade devido a própria violência que sombreia os processos civilizatórios.
Um prato tão rico quanto a cabidela esconde um conjunto de práticas adquiridas ao longo do tempo e um complexo simbólico a ser explorado. Certos alimentos despertam respeito por aquilo que são capazes de aludir. O pão, por exemplo, mesmo entre os ímpios tende a ser visto com afeição por evocar um gesto típico da solidariedade humana. No caso do sentimento de Clarice pela galinha imersa em seu próprio sangue a deferência parece derivar da ideia tradicional do sangue como essência da vida, a seiva revestida de atributos sagrados e, por isso mesmo, quando transformado em ingrediente motivo de cuidados especiais. Seu potencial contaminante está conectado com os limites de uma ordem cósmica. Sendo uma escritora que se impõe o trabalho metafísico, Clarice se nutre da iguaria atroz tanto pelo desejo quanto pela metáfora.  
O sangue fora de seu curso venoso altera a ordem, ressalta a morte, nos lembra do abate, de nossa brutalidade. Filha de refugiados de guerra, Clarice desconfia da civilidade, da frivolidade que tende a incentivar; a capacidade de maquiar a violência a ponto de fazê-la parecer o oposto de si mesma. O abate incomoda, mas se o concebemos como parte da vida precisamos encará-lo para entendermos o que é ser livre. Trata-se do esforço do artista cuja arte depende da manutenção de qualquer fração genuína de vínculo com a força criadora. Precisa da porção menos normatizada de seu ser. Ao comer a cabidela Clarice se percebe mais desgarrada.
A profundidade incerta, sem selo de inspeção, torna-se para ela uma ferramenta de luta contra a pacificação/domesticação que a superfície das experiências impõe. Aqui é possível associar a postura intelectual da escritora ao pensamento de Adorno, para quem a experiência na acepção da palavra só é possível a partir do confronto audacioso com alguma ameaça. No caso da bravata alimentar, a ameaça está refletida na lâmina da faca, não quando o instrumento serve de picotadora de legumes à brunoise ou julienne, mas quando desliza terrivelmente sobre o pescoço da galinha.
Num diálogo entre os personagens Ulisses e Loreley, extraído de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice dá indícios de sua justificativa moral por se lambuzar na cabidela. “ Claro que devemos comê-la, é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com o seu sangue”. Há certo espanto nisso, mas talvez certa razão em indagar: será que a crise atual do humanismo tem a ver com nossos estômagos excessivamente embrulhados.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

VIDA MENÁDICA ou pequena contribuição à doutrina do amor.

"Parce qu'était lui, parce qu'était moi"

Todos nós nos infligimos alguma dor sem controle, alguma angustia sem razão ou limite, algum tédio sem previsão de fim e, por vezes, pequenas porções de prazer rápido, com lapsos orgiásticos. 

Tudo de péssimo no pessimismo nos envolve profundamente, niilisticamente, algebricamente, como a fatal e famigerada ressaca após alguma carnavalesca brincadeira.

Dizia o poeta: “Pergunte pro seu Orixá, Amor só é bom se doer”; no entanto e no geral, as pessoas não se amam metafisicamente; as pessoas tendem a amar as condições materiais e as possibilidades estruturais que acreditam poder obter no outro.
Não há afinidades anímicas ou corpóreas sem vantagens conjunturais ou conjecturas egóicas. 

A pequena flecha de Eros não concede prazer eterno. Muito menos paz. Sempre depois de então saciada a pressão orgásmica, as coisas todas que nos levaram até ali perdem momentaneamente o sentido primevo; para depois serem rebobinadas novamente pela mola do desejo. “Em tudo o prazer cresce na razão em que nos deveria afastar dele.” Ou “o desejo e o gozo fazem-nos sofrer igualmente”.

“Aquele que conhece todo o resto sem ser ele mesmo conhecido” é o amor, e por isso mesmo, o mais egoísta de todos os sentimentos... Consequentemente, quando contrariado, é também o menos generoso. Destarte, se a paixão é uma guerra e o namoro um duelo, todo matrimônio é domínio a domicílio: “Somos como cães amarrados a uma carroça em movimento, a corda é longa o bastante para nos dar alguma liberdade, mas não para irmos onde quisermos.”

Com efeito, sem amor, só haveria a chance para uma existência física, objetificada, visto que: “os animais se satisfazem muito mais do que nós com a simples existência; as plantas, totalmente; os homens, conforme o grau de seu embrutecimento.” Primeiro nos vem à intuição, só depois a experiência.

Nada, no Mundo da Vida, é mais poderoso e importante que o Amor, pois o que está posto em jogo, com o Ele, é a contínua sobrevivência da espécie; e aqui não estou pensando só no amor erótico ou romântico.

Somos inadequados para o Mundo da Vida, produzimos desarmonias dolorosas por demais para viver, vivemos com o chicote em punho como quem adestra animais interiores, buscamos Fortuna e Virtude na tentativa de adequação, e mesmo assim “a natureza (como a sociedade – já que toda sociedade é também natural) é muito cruel com seus produtos de melhor qualidade; ela ama e protege de preferência o médio e o medíocre.”!

Por tanto, o único jeito de se manter calmo e equilibrado diante da adversidade do amor é estando preparado para esse destino imprevisível, e depois, agir filosoficamente sobre ele.

Eis uma lei para o Amor Fati.

P.S.: Os trechos entre aspas são de Schopenhauer, Sêneca, Montaigne, Nietzsche e Vinicius de Moraes.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Anti-K Freudiano

Ele sempre acordava com sede no meio da noite.
E a caminhada até a cozinha era longa e tortuosa.
Batia nos móveis, esbarrava em paredes, tateava pelos cantos e não achava interruptores; só havia luz quando abria a geladeira.
Tomava goles profundos na boca da garrafa e sempre sentia algo lhe tocar os lábios que lhe fazia cócegas.
Olhava a garrafa antes de recolocá-la no eletrodoméstico, mas, com olhos embaçados, não era possível identificar o que havia dentro.
Pensava consigo mesmo: a vida é abrir o refrigerador de madrugada e ter vontade de voltar pra cama.
Voltava pra cama e apagava a sensação ao desabar sem sonhos na cascata do sono.
De manhã, toda manhã, corria ao refrigerador e encontrava uma aranha ainda viva dentro da garrafa.
Esvaziava a garrafa no jardim, repunha a água, e seguia o passeio de mais um dia cotidiano.
Numa noite qualquer, a sede era tanta que ele esvaziou a garrafa e então sentiu as patinhas do aracnídeo lutando para fugir do movimento peristáltico do seu esôfago.
E pensou consigo mesmo: Engolir a angustia é mais difícil que desistir dos sonhos.
Voltou pra cama e apagou com a sensação de que dessa vez haveria sonhos no cata-vento do sono.
Na manhã seguinte ele encontrou a garrafa vazia, dessa vez não repôs a água e não seguiu com o passeio cotidiano. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Manhã Curiosa

(Texto de Rodrigo Acioli Peixoto)

Que manhã de segunda-feira curiosa. Ainda terminando o café no supermercado, um senhor de bengala se aproxima e dispara:

- Vocês sabem pra que serve banheiro de supermercado?
(Silêncio geral, todos achávamos saber a resposta, mas esperamos...)
- Pra viado chupar rola! Isso é um absurdo! São uns degenerados!

Um dos senhores ao observar minha curiosidade fez um sinal com as mãos dizendo que o sujeito era louco. Tentei esconder minha insatisfação, pois, estava justamente pensando que de 9 da manhã de uma segunda-feira, havia alguém naquele supermercado taciturno que havia levado uma bela chupada e outrem que a havia feito. Imaginei que haviam duas (e apenas duas) pessoas sorrindo naquele lugar enquanto escolhiam a marca de margarina, o tipo de queijo e a melhor marca de café. Duas pessoas (e apenas duas) sorriam na fila e dariam um bom dia honesto à atendente.


Espero que a loucura do senhor não seja a do tipo alucinatória. De todo modo, sorrio e dou bom dia a atendente mais próxima.

domingo, 14 de setembro de 2014

Strychnos Nux Vomica



Descobri recentemente um argumento cabal para minha hiperatividade noturna e meu sono diurno. Sempre fui taxado de preguiçoso e/ou de desleixado para com os compromissos matinais; no entanto, sempre achei isso uma burra injustiça comigo e com minhas elegantes (porém anarquicamente estruturadas) sinapses nervosas.


Aconteceu-me de de repente começar a cursar uma disciplina eletiva/opcional sobre homeopatia aqui no curso de Enfermagem Clínica da UFPB (já tinha eu uma curiosidade sobre como os médicos ocidentais enxergavam a coisa da energia vital e do equilíbrio da mesma!) e lá fui descobrir, ou pelo menos justificar, que posso ser de fato um sujeito com horários invertidos; sempre fui um notívago confesso e minha nobre mãe pode provar o que afirmo.

Pois bem, não vou ficar aqui explicando como funciona essa coisa toda quem quiser que pesquise, mas com o pouco de Freud que li e com as auto-especulações homeopáticas a respeito do meu Simillimum no mundo, percebi que estava mesmo certo em meu âmago soberbo e intelectualmente producente, que: geralmente funciono bem melhor nas escuras; na solidão da madrugada rida; na noite cheirosa e crua; na presença de espíritos silenciosos; na angustia da possibilidade de dar fim e completude ao todo que me resta e a tudo que me falta; na ideia insípida de Não-Ser o Ser por um breve e tranquilo momento congelante.


(já perceberam o quão entorpecedor é o aproximar-se do sono e a vizinhança da morte?).

Enfim, encontrei nessa nova pesquisa de minha vida homeopática coisas muito minhas e muito dos outros, (Personas, quiçá...?), que me deixaram feliz e aliviado como uma Natura Naturante e com o Cosmo inteiro e em pedaços; como quem lê o horóscopo chinês do jornal de Xangai, um pouco ressacado da vida anterior, num domingo nublado, e toma aquilo tudo como verdade-verdadeira-absolutamente-falsa, mas que não deixa de encontrar motivos para estar ali.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

UM IMPOSSÍVEL ROMANCE

História sobre um quadrilátero amoroso entre figuras nada convencionais...

Introdução - ato I - apresentação dos personagens da trama.

[Cenário:
mesa de madeira no centro (que possa ser arrastada);
uma cadeira de madeira e um lençol grande colorido sobre a mesa;
uma grade (como uma jaula) que entra e saia de cena de vez em quando.]

[Figurino:
Palhaço Bufão: sunga branca.
Anatomista Ventriloco: jaleco de doutor.
Artista Perdido: camisa surrada do The Doors ou Pink floyd.
Embrutecido pelos Livros: camisa folgada de manga-longa e de botões.
Anã Polegaria: vestidinho de menina.
Diabo Midinho: sobretudo azul escuro, que vá até os pés.]

O narrador (que é um Palhaço Bufão) começa falando enfadado e devagar e vai ganhando ritmo ao longo da narrativa.
(Aparece no palco lendo um jornal e se senta na mesa de frente para a platéia.)

Palhaço lê devagar a notícia:
Era tarde, MUITO TARDE, e mal começava o dia...
A preguiça que eles sentiam era grande, mas sabiam que tinham depositado algo em alguém.
Dormiam felizes e com essa plena certeza.
(palhaço dobra e joga o jornal pra trás e começa a apresentar os envolvidos.)

Persona 1 - (Anatomista Ventríloco) - Esse sujeitinho (aproxima-se do personagem a passos largos) fazia anatomia comparada e resolveu entrar pro circo, achou que a vida mambembe lhe traria recordações de gente perdida pelo mundo. Sabe dissecar corpos e por isso acha que tem facilidade em comunicar-se com os outros. Embora fale bem pouco!
(o personagem está dissecando um galeto com os dentes.).

Persona 2 - (Artista Perdido) - E aquele? Ah, aquele é um sonhador! Vejam como dorme a alma de um artista pós-contemporâneo...
(O Palhaço, andando na ponta dos pés, aponta para o personagem num canto aceso do palco: nesse momento o Artista Perdido se remexe todo como se estivesse num sonho de cachorro. Faz barulho como um cão e balbucia a respeito de uma bola.).

Então o Palhaço continua:
Persona 3 - (Embrutecido pelos Livros) - Já o outro, nem se bole. Leu demais para ter sonhos próprios... Seus sonhos são como pequenas novelas em quadrinhos.
Tudo tendo data e hora pra acabar!
E ele achou que havia se encontrado, mas não achava que acontecessem desencontros de si consigo mesmo.
(o personagem empilha livros em busca de ordem.).

Ainda o Palhaço narrando:
Persona 4 - (Anã Polegaria) - E ela nem apareceu ainda pra não implicar ou implodir essa situação!
Quem?
Vocês me perguntam...
E se me pergunta esse quase seleto e diletante público!
Ela é Polegaria!
Ela é a razão desse improvável e absurdo romance.
Agora posso apresentar nossa heroica menina, grande e miúda, ali está!
(E aponta o dedo para um canto vazio do palco.)

...pausa...

Vejam bem, isso pode ser coisa só da minha cabeça, mas eles estão se acordando e quem dirá melhor sobre esse amor bizarro se não eles enquanto eles mesmos? E olhe que nem falei de um tal diabo Midinho, ainda...
(E sai o Palhaço de cena...)

CONTINUA;





quarta-feira, 31 de julho de 2013

MUDANÇA IN$$$OCIAL


Hoje de manhã percebi que tratores começaram a derrubar os matagais dos terrenos baldios de meu recente bairro em construção. Lembrei até de uma cobra e um calango lindo que vi dia desses; pensei preocupado em como eles se viraram, pois os macacos sagüins (pequenos primatas dessa minha nova redondeza) se migram com uma facilidade hominídea incrível!

Achei até tudo muito moderno e de uma tristeza sem romantismo, mas não pude fazer nada. Sou um cidadão de merda e até um tanto preocupado com a urbanização de meu tosco e grudento pedaço de classe média; só que no exato momento me veio uma coisa, nem sei tão o porquê, absurdamente nostálgica...

Pensei que era eu como meus pais no tempo deles: Chegando lá no Arruda em meados da década de 70; com uma casa própria sendo construída naquele momento; com um carro zero na garagem; com três filhos pequenos pra criar; com o serviço militar e o magistério completos; com um sítio pra passear nas férias; concursados e com estabilidade monetária; com tanta juventude e tão velhos ao mesmo tempo...

É, realmente, dessa vez, comparei demais errado.

sábado, 18 de maio de 2013

Não é Justo


para  Manuel Bandeira.



Hoje fui na busca de cervejas, choveu pra caralho por aqui, e costumo cortar caminho pelas vias de terra; numa dessas vias há um pequeno barra-a-barra, onde a molecada se diverte.

Ao vê-los se deliciar com a pelada, com uma bola fuleira e com a lama do chão num gradiente de concentração tão grande que não absorvia mais nada – nem a mim! – quase peço pra jogar também...

Mas eles tinham em torno de dez anos, e eu, apesar da idade, tenho em torno de quinze!

sexta-feira, 1 de março de 2013

Liberdade e Política


Caminhando pela noite de minha cidade insalubre e triste, deparei-me com um cemitério de muro largo, alto, altíssimo e largo; pensei: por que (ou, quem sabe, pra quê?) tantos muros em locais de morte e decomposição? (Não entrarei no fato dos furtos aos que já estão bem mortos; bem mais que nós!) Mas será que nem na morte estamos livres?

Depois pensei:
Pergunta estúpida, sei sim, mas a vontade era de ultrapassar aquele muro quase intransponível... Depois me vi escalando a muralha da mortandade e de repente estava eu, lá em cima, contemplando e sentindo o avizinhamento da morte. Não saltei como queria. – Planejava um salto mortal quase ornamental. – Apenas olhei dentro do universo das covas e lápides que conseguia avistar com minha vista vazia e a pouca luminosidade que a lua proporcionava naquele momento.

Sentei em cima do tal muro e sorrateiramente me apareceu um gato! Era um gato malhado como uma vaca e com um cavanhaque que acompanhava todo seu bigode. Dizem por aí que gatos têm tudo a ver com os mortos... Desde os egípcios, dizem. Nunca gostei muito de gatos e nunca pensei muito na morte (não dessa forma), se bem que achei o momento propício pra meditar.

Por incrível que pareça acabei pensando em uma política da liberdade. Sempre me soou bacana a idéia de que ser liberto é nunca ter o que fazer; ou melhor, não ter que fazer nada... Mais ainda, de também não ser obrigado a nada! A política tal qual a sonhamos deveria partir de nossa pulsão de liberdade, de modo que garantisse ao indivíduo formas inquestionáveis de manter-se livre no mundo.

Então perguntei ao gato, que me revelou se chamar Radote:

– O que é liberdade, heim, gato?

– Um desejo do símio humano que entende a finitude e a evita.

– Então, ao contrário da vontade, do desejo, a liberdade é sempre finita?

– Das mais finitas das categorias humanas. Em tudo ao redor uma corrente, dizia o francesão lá. O fato de ser escravo da própria volição é um indicador.

– É, gato Radote, a independência é coisa de poucos e muito pouca! É necessário desgarrar-se dos outros e de si mesmo... Ser nobre e autêntico fora do rebanho é possível?

– A sociedade de onde viemos é como a cor dos nossos olhos. Podemos até dissimulá-la com lentes, mas o fundo original é inevitável. E é justamente ela que acorrenta. Agora vou jantar...

Assim ele encerrou nosso diálogo e pulou para dentro do terreno funéreo; como apareceu, sumiu. E eu fiquei lá pensando sozinho...

O homem de espírito livre, primitivo ou do futuro, mesmo que com boa parte da sua liberdade comprometida com os outros e com ele mesmo, tem o direito de tentar Ser o que se É. Os mortos da antiguidade (quase que paleontológicos) foram mais libertos e menos comprometidos com a liberdade que nossos mortos. Onde entra então nossa fúnebre ontologia política nesses termos metafisicamente estranhos? Cosmologicamente estou convencido de uma idéia inerente ao nosso jogo físico e entrópico no mundo sensível, de que a liberdade é só mais um passo para desordem, ou para a política, desde que sejamos livres políticos e de que morramos politicamente também...


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

GARDENAL


para Murilo Rubião.

Eu era um apenas um menino (na verdade eram eles que me chamavam de Menino) quando aquilo me aconteceu. Eu só tava ali há uma semana! Todos pensaram que era mentira; (as pessoas sempre pensam em si mesmas antes de delegar alguma possibilidade de verdade a alguém). Sei que tinha eu alguns “problemas” com o restante da vida social, mas não sei se “problema” é o nome adequado para o que eu realmente sentia.

Diziam lá que eu tinha um faro pra dor. Acho que por isso sempre me colocavam com os sujeitos mais dolorosos. O primeiro era o Adauto, Adauto era um cara em eterna crise: crise com a mulher, crise com a ex, crise com os filhos, crise com a mãe o pai e a puta que o pariu... Adauto só não tinha crise com o jogo do bicho! Porra, ele sempre ferrava alguma grana... O segundo era Arrimo, (todo mundo tirava onda com o nome dele, ele era gaiato, mas ele era solteiro e sempre andavam os dois.), Arrimo era um fotógrafo fuderoso! Tanto na operação da máquina quanto na visão do mundo.

Adauto e Arrimo estavam sempre disputando uma forma melhor de entrar em ambientes proibidos. Sempre querendo ver alguma coisa que ninguém imaginou e transformar isso em uma longa página do caderno. Incansáveis! Entravam em ambientes escusos e insalubres em busca de fotos sanguinolentas e cheias de dor e morte.

Minha função era só acompanhá-los com a maquinaria, mas sempre que chegava perto de algo assim, eles sentiam... Sentiam que algo estava diferente... Mas nunca era nada. Voltavam com fotos vazias e eu me perdia de sono e dormia no sofá. Esse foi meu erro, não devia ter dormido lá!

Foi quando chegou a missão:
Gritou Aldebaran, nosso pau mandado:
Existe um pequeno prédio na avenida Rui Barbosa no qual rolou um assassinato. Parece que o doidão do marido e a mulher e o filho e o cachorro e o caralho a quatro se fuderam numa situação inexplicada. Vão lá e me tragam o melhor... Saibam que o local está interditado, só que vocês são os tabacudos que tenho pra romper essa bagaça. Cuidado e não me tragam problemas pra cá, sendo pegos, já sabem, nós não temos nada com isso e eu nem sei porque estavam lá e mando demitir os dois.

Pensei:
O meu tá fora da reta! Vai se fuder otário... fechei os olhos e dormi mais um pouco.
[Essa porra dessa gente vive só da desgraça dos outros! Mal cheguei e já quero vazar!]

Nessa hora Arrimo cai no chão e finge uma crise epilética.
As pessoas se aproximam e ele espumando diz:
Só vou se levar o Menino comigo!
O povo ri e é quase unânime que eu tinha que ir.
Disse, em minha defesa, que precisava usar a copiadora pra imprimir coisas da faculdade. (Riram muito mais ainda.)

Fomos e chegamos num duplex abandonado. Eu disse que a gente tava no lugar
Errado. Ninguém me ouviu. Entramos e o ambiente era estranho, sujo e decrépto, mas sem fezes de mendigos ou pixações de gangues. Tudo em seu lugar. Fiquei meio noiado, foi quando me perguntaram:

Ei, Menino, tas sentindo o que?
Tem coisa aqui, né?
Tas com medo?
Eu disse:
Num tava não, mas vocês ficam me lombrando...

Foi quando Arrimo bateu uma foto da banheira!
DEUS DO CÉU!
(Eu gritei.)
Meti a luz em cima e não tinha nada.
Ele disse:
Tu viu?
Eu disse:
Vamo sair daqui.
VEM CÁ VÊ ESSA PORRA...
(gritou Adauto lá de dentro)
Corremos agoniados pra ver o que era e ele estava lambendo um colchão todo melado de sangue!
Arrimo começou a fotografar e o flash da câmera me dava mais apreensão, a cada feixe de luz eu via cenas diferentes.
Foi quando gritei:
Vocês Piraram!?!

Num impulso de loucura e pavor dei uma porrada violenta na câmera e corri o mais que pude pela avenida, já era madrugada e não me passava nada. Cheguei na sede a pé, lá pelas tantas da manhã.  Não havia nada. Não havia ninguém. Era bem ali, perto do Rosarinho. A casa estava fechada e eu morto de cansaço.
Forcei a porta e me sentei no velho sofá, tirei um cochilo e pensei:

Por que voltei? Mal voltei e já quero vazar!

No fim é tudo FUTEBOL


Ato 1

Pedalava para casa
{estava bebendo e era noite [ao mesmo tempo gritava: PRENDAM-ME OS PURITANOS (e refleti: será que existe um tempo de ser puritanamente preso?)] DENTRO DE UM VESTIÁRIO DE FUTEBOL FEMININO...}

(Quando cheguei em casa minha Mãe falava verborragicamente sobre o rádio e as notícias do rádio e os protestos da educação e o salário dos vermes dos vereadores...)

Lembro-me de quando era um tanto jovem e imberbe e sentia algo tão especial pelo meu Time, sentia que iria ser tudo diferente, sentia que podia ser antropologicamente igual; ou então somente um pouquinho mais ou menos igual!

Sempre achei que o mundo todinho (tomando Todynho) podia mesmo ser uma grande merda. – mas fiz parte dessa lombra louca toda que foi pintar o meu ESTÁGIO – Ah, conheci todos os recantos de uma arquitetura futebolística...

Ato 2

?Acho muito chato isso...!
Que tipo de amigo é esse que sempre tem só críticas?
Prefiro os “amigos” de clitóris... (disse alguém na platéia...)?
Parece bem agradável sentar a sombra do cajueiro e viver com as roupas cheias de nodoas... ?
Parece bem agradável, ser somente um ser deitado numa rede com os pés arrefecidos na água...?
Mas, tive que trabalhar...?

Ato 3

O sol era escaldante, como sempre é no subúrbio, e meus conhecidos falam errado pra caralho.

Pintávamos as arquibancadas do Mais Querido Clube das Multidões e Tarlos mandava assim com sua voz de rapaz musculoso:
- cigarro e café...
(e depois gritava):
CIGARRO E CAFÉ!
Riamos como peões bêbados de som e sol.
Ele dizia:
Olha o Pluct Ploct!
(era a venda de cigarro com chicletes...)

Depois dizia:
A seleção vai tocar aqui...
Eu perguntava:
Tocar o que?
E ele:
Vai tocar o terror, menino... Vai botar quente...
[OBS: Nem pensávamos em Tomário ainda.]

(sempre gostei de Tunga, acho que por influência do meu irmão; ainda gosto.)

Ato 4

Tinho sempre me protegia e eu era quase como um pupilo dele.
Teraldo queria algo a mais; ele era desse jeito, porém era de outro também.
Tardoso era muito chato e brigão pra cacete, embora retórico.
Tereira era muito louco e sempre condescendente, mas torcia por outro.
E Funk-Tulha era o mais foda, ele sofria de uma micose na época, meti IODO nele, e ele se fudeu com classe!
Mas Tunga era sempre Tunga!
Tomário, ainda era um chato sonho!

Ato 5

Percebi que o mundo não era só as arquibancadas.
Tive meu primeiro grande amor, simultaneamente a outros amores, e vive a falência dos que se amam.
Dona Terônica (mãe do amor naquele momento) me disse que o time dela ia vencer...
Venci dona Terônica e Tatrícia já não me queria mais.
Tatrícia anda só pela trácia e eu ando só pelos campinhos de pelada.

Perguntei a Tico sobre uma paixão:
E disse ele:
MULHER SÓ PRESTA QUANDO GOSTA DA GENTE.
Eu disse baixinho:
Eu sou insubstituível!
Ele disse em tom absurdamente normal:
Ela não pensa assim, meu querido.

{reflexionei só: quase tudo é futebol}

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

YAKISSOBRA DE EMBUTIDOS


É muito fácil, mas precisa de macarrão de yakissoba!

Pegue cebola, pimentão, repolho e tomate, pique tudo e vá dourando seqüencialmente.
Dourei no azeite, mas pode ser com óleo diesel se preferir.

Pique, também, calabresa, paio, presunto, mortadela e bacon (atenção: separe só a carne do bacon, sem a gordura. Depois ensino uma outra lombra com a gordura!).

Vá jogando as verduras numa frigideira grande, na ordem estabelecida acima (enquanto o macarrão cozinha por 5 minutos, nem mais nem menos.), só que entre a cebola e o pimentão, acrescente os embutidos picados.

Tempere com molho shoyo, molho de alho, molho inglês, molho de pimenta, um pouquinho de curry e se tiver coloque também um pouco de coentro desidratado; se não tiver não ponha coentro, mesmo, pois toma o gosto da parada toda.

Quando o repolho amolecer de forma palatável, meta o macarrão na panela (devidamente cozido por 5 minutinhos, claro!).

Com um pouquinho da água quente do macarrão que foi escorrido, dilua um caldo de arroz (desses branquinhos que dizem que é de alho.) e sacuda na frigideira onde o romance está rolando.
Deixe evaporar um pouco ou – se preferir – bote mais shoyo.
Agora pode derramar numa travessa e se esbaldar!

Bebida pra acompanhar: Chá gelado de canela, limão e pitanga.
Dica: Tire o miolo do limão e só colha as folhas novinhas da pitanga.
Outra dica: Não mexa a mistura na frigideira com colher de metal, isso quebra o macarrão e é um saco!


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

AMIGOS LÉSBICOS (lesbian bar)


Algumas vezes, qualquer pessoa, qualquer que seja, independente do grau de instrução ou de afeto pelo social, deseja algum tempo sozinha! A pessoa em questão pode estar de bem ou de mal; da vida e do mundo; de você ou de alguém; mas esta pessoa quer, e tem o direito, de um tempo a só consigo mesma.

Às vezes, tudo que se quer é um encontro de amigos.

Ah, como é saborosa a solidão entre amigos.

Amizades são sazonais (acho que já falei isso num texto antigo!) e essa sazonalidade é pouco discutida entre os amigos. Amigos de fato se desencontram. Amigos se encontram porque se gostam, não por terem alguma obrigação datada e irremediável. Amigos de fato se abandonam. Amigos se telefonam porque precisam se falar de dores e felicidades inconstantes e raras, não por terem créditos e bônus de mil ligações para se telefonar.

Às vezes, tudo o que se pede é um simples encontro entre amigos.

(Mas no dia e na noite, invariavelmente, rolam confusões... E as pessoas guerreiam, os cães ladram, uns se machucam, outros choram, socos voam, abraços caem, bebês pedem amamentação, mulheres são acusadas de abuso, homens são tratados como canalhas, trabalhadores fazem greve, o trânsito engarrafa, as escolas explodem, as vaginas secam, os pênis ressecam, os idiotas se acham gênios, outros se acham Deus, ambulâncias gritam histéricas, tomates apodrecem pra virar molho, crianças com fome comem terra e bêbados decentes reclamam do aumento da gasolina.)

E às vezes, tudo o que se quer é voltar pra casa.
Voltar pro próprio berço...
Ou pra mulher amada.


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Picardia Caudalosa de Beta-Caroteno

Insumos Necessários...

Vegetais supimpas:
1 pedaço generoso de jerimum;
1 cenoura vistosa;
1 chuchu bonitão;
1 cebola grandona;
E alguns dentes de alho bem cheirosos.

Temperos legais:
Curry,
pimenta calabresa,
pimenta-do-reino,
manjericão,
azeite
e noz-moscada.

Instruções de vôo:
Coloque água para ferver em uma panela média, não precisa colocar muita água, pois ela será reutilizada. Vá descascando e picando os legumes nessa ordem: primeiro entra a cenoura (isso soou meio erótico, não?) devidamente picada, depois entra o chuchu (ui...) e por fim o jerimum (ufa); é sempre assim: “do mais duro pro mais mole”. Quando estiver no meio do processo de cozimento jogue alguns dentes de alho dentro (uns 3 ou 4). Numa frigideira grande refogue a cebola, em uma porção bacana de azeite, com um pouquinho de pimenta calabresa e alguns alhos picadinhos (uns 2 ou 3). Quando dourar coloque uma concha grande da água do cozimento dos legumes. – dica: escorra a água dos vegetais diretamente no copo do liquidificador, assim suja menos coisas e facilita sua vida depois. – Agora, aproveite enquanto a cebola e o alho refogados fervem e tempere seguindo seus sentidos gustativos. Uma pitada disso, uma pitada daquilo. Jogue os vegetais cozidos que estavam no escorredor e mexa vigorosamente com uma colher de pau (cozinhar é tão sexy!). Vá adicionando a água de cozimento das verduras e continue a mexer, baby, mexendo para pegar todo o sabor... ah, garota, oh yeah, isso, don’t stop...

Depois retorne com a gororoba ao liquidificador e liquidifique tudo.

Por fim, derrame o caldo resultante de volta na panela onde tudo começou e dê a última fervura. Desligue o fogo e só agora rale um pouco de noz-moscada por cima. Pronto! Sirva com azeite e/ou queijo parmesão ralado. Gengibre, em fatias finas, também é um bom acompanhante, pois potencializa a picância do caldo.

Sugestão de bebida para acompanhar: um copão de leite super gelado, só pra dar o contraste.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

ESTÉTIC@ & POLÍTIC@


Em 1968, Caetano Veloso profetizou o que viria a ser parte de nosso futuro político enquanto nação, após ser massivamente vaiado num festival de MPB da TV Record pela juventude dita revolucionária da época, que não aturou a novidade estética trazida pela tropicália. Caetano, em tom muito emocionado, praguejou contra a platéia: “Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos”. O pior é que ele estava certo! Passado o regime militar seria aquela juventude que assumiria o poder, agora velhos politicamente influentes e nada revolucionários.

Se para o pensador argentino, José Ingenieros, a velhice mediocriza os homens, para mim esse sintoma também pode acometer os jovens, tornando-os caretas. E esse processo de encaretamento traz consequências nefastas para a sociedade.

É difícil aceitar o novo. Os mecanismos de apreensão do mundo sempre resistem às mudanças. Esses mecanismos cognitivos são formados no choque entre os corpos e entre os campos de força que estruturam o sistema social vigente. Como disse Marcuse, “o homem é dominado pela riqueza em expansão de seu meio econômico, social e político, e vem a esquecer que seu livre desenvolvimento é a meta final de todas essas obras; em vez disso, rende-se a seu império. Os homens sempre procuram perpetuar uma cultura estabelecida; assim fazendo, perpetuam sua própria frustração”.

É mais ou menos isso que penso quando vejo, no período eleitoral, tantos jovens se portarem politicamente como seus avós. Acham-se revolucionários e não passam de pequenos conservadores repetindo o esquema no qual estão inseridos. Acham-se punks anarquistas, mas não passam de yuppies capitalistas. Todos querem propostas (mesmo que não sejam executadas ou executáveis), mas não novas idéias. Todos têm teses; nenhum antíteses!

Será que não temos o direito de apresentar uma nova textura política para o tecido social? Mesmo que o primeiro passo seja predominantemente estético? Mudemos a forma agora e o conteúdo logo em seguida, posto que o limite entre a forma e o conteúdo já caiu por terra antes mesmo daquela vaia dirigida a Caetano Veloso. Somos de uma outra geração, creio eu que mais ética e bem mais divertida. Não queremos enricar, não precisamos de mais milionários, precisamos de justeza social e crescimento intelectual. Queremos leveza no coração e liberdade na alma. E só através da estética é possível romper com a ordem epistemológica estabelecida. Só esteticamente conseguiremos sublimar essa política objetal. Chegou a hora da catarse, meus amig@s, chegou a hora de uma nova política para os novos cidadãos que aí estão e que hão de vir.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

10 PEQUENAS COISAS SOBRE O MUNDINHO DOS MACHOS

Por Hellena Vasquez Bañera*

1°) Nem no Tempo de Donzela;
Nenhum homem confia plenamente em mulher alguma! Nem na própria mãe!

2°) De Olho na Kilometragem;
Todo homem detesta a idéia de vir a contrair matrimônio com uma sujeita extremamente rodada.

3°) O Ônus da Prova;
Os cafajestes mais tarimbados negam até a morte (quando indagados sobre) qualquer deslize de fidelidade dentro ou fora do relacionamento vigente.

4°) Da Necessidade de Variar;
É notoriamente assumido entre eles e seus amigos que após aventuras extraconjugais o tesão e o sexo com a parceira melhora consideravelmente... Pelo menos por um tempo.

5°) Beleza (quase) Não é Fundamental;
Eles não se importam (ou quase não!) em comer mulher feia – é claro que cada um tem seus próprios limites e parâmetros, mas eles acham até divertido resenhar com a rapaziada sobre o ato corajoso inspirado em São Jorge – o problema é o pós-orgasmo!

6º) Subjugando a Fêmea;
Esse papo de mulher que toma a iniciativa é broxante pra maioria dos homens. Mulher predadora assusta! Machos se excitam com a conquista de desbravar o não permitido, o roubo da inocência, o prazer proibido e o “estupro” consentido.

7º) Viagra de Ego;
Todos os rapazes já negaram fogo algum dia. (Embora muitos não assumam por conta do ego inflado maior que seus paus...). Se não efetivamente, no ato da cópula, então indiretamente, esquivando-se do possível confronto sexual.

8°) Amigas, Amigas. Negócios a Parte;
Não existe essa idéia de “amiga” para os homens. (Homens machistas só são amigos de outros homens porque, teoricamente, não querem se comer; se quiserem e isso acontecer, adeus amizade.). Aliás, “só há amizade no pudor.”

9º) Natureza Favorável;
Na cabecinha desses meninos toda menina é naturalmente bissexual. Por isso insistem tanto em transar com mais de uma simultaneamente. Mesmo, muitas vezes, não dando conta do recado.

10°) O Amor Acaba Vencendo;
Por fim, queridas amigas, não adianta perguntar aos seus parceiros se eles pensam ou se portam desta ou daquela forma, (Os que admitem geralmente são execrados e por tanto, raros.); é melhor relevar essas bobagens machistas, pois o amor ainda é possível e este lança ao chão todo mundinho dos machos...


* Hellena Vasquez Bañera é Psicobiologista e pesquisadora do Ethos dos primatas humanóides.